Faz frio e chove bastante. Estou agarrada com uma caixa onde guardo minhas melhores lembranças. Acho cartas das minhas melhores amigas da época e que hoje já nem mantenho contato. Algumas conseguiram casar, outras partiram dessa cidade e outras desapareceram dessa vida. Encontro fotografias antigas da família e me pego observando o sorriso da minha mãe, ela era tão jovem e tão bonita. Encontro alguns diários antigos e fico surpresa com a quantidade de besteira que havia alí. Encontro conversas do colégio falando sobre algum menino bonito do ensino médio. As lágrimas vão surgindo. O que a gente faz com essa vida? Acho muito interessante a capacidade que as pessoas tem de deixar a vida dos outros. Acho interessante como o tempo passa rápido e como nós vamos envelhecendo. Acho isso crueldade.
Ligo o rádio. Aquela caixa tem trilha sonora. É quando bate aquela saudade de tudo: das brincadeiras de criança, daquela amarelinha riscada no meio da rua, dos gritos da minha mãe para comer bem e não ficar doente, das minhas amigas do colégio vivenciando o primeiro amor, das viagens com a família, das histórias contadas. Levanto e me olho no espelho. Quase que não me reconheço. A minha vida anda tão corrida que não tive tempo de analisar como estou. Percebo que há alguns cabelos brancos e estou até mais gordinha, percebo que já não tenho mais aquele rosto de antes e que andei crescendo um pouco. Garanto que foi falta de tempo. É nesse momento que paro e converso comigo. O que a gente faz com a vida? Somos crianças e logo queremos ser adultos, crescemos e estudamos para passar no vestibular e cursar o curso dos nossos sonhos. Conseguimos passar e vivenciamos a faculdade. Terminamos o curso e trabalhamos. Trabalhamos e queremos construir uma família. Construímos uma família e ficamos velhos. Ficamos velhos e morrermos. Lei natural da vida.
A gente não tem tempo de pensar assim. Vivemos com tanta pressa que esquecemos de olhar nossos pais, abandonamos eles e deixamos de lado as preocupações de casa. É pouco tempo para viver. Queremos tudo de uma só vez e isso faz com que deixemos de lado nós mesmos. Deixamos de nos cuidar e esquecemos da importância do nosso bem-estar. Nosso ciclo de amizade vai diminuindo com o tempo e quando contamos nos dedos só restaram um ou dois. Nós não vivemos corretamente. Mas eu acho que temos pressa porque o tempo é "curto". Se tivermos sorte em chegarmos ao fim da vida. Um dia nós vamos sentar no chão e pegar aquela caixa de lembrança, só aí vamos perceber que o que realmente vale é o hoje. O que passou, passou. Fica a saudade, o choro, a lembrança. E vamos perceber que nem é preciso ter tanta pressa assim, quando aprendemos a viver bem, aprendemos a viver devagar.